Milagrário Pessoal


Lembro-me de em 2010, quando li a crítica a este livro na Time Out Lisboa, de ter pensado que o gostaria de ler, chamou-me à atenção primeiro o título e depois a possibilidade de se falar em palavras roubadas, ou nascidas da “língua dos pássaros”.

No entanto não o comprei… Como foi oferecido no trabalho fiquei em lista de espera para que chegasse a minha vez de o ler! Na verdade a primeira pessoa que tentou desistiu, e aconteceu o mesmo à segunda. Por isso, quando o livro me veio parar às mãos desconfiei, será que o iria conseguir ler, e por isso durante meses, talvez mesmo um ano, o livro ficou na minha mesa de cabeceira, à espera que viesse a coragem para o começar a ler… o tempo passou, e um dia decidi que era o dia! Comecei primeiro a ler, e pouco depois a devorar… dei por mim a pensar quando é que me sentaria outra vez no transporte público para continuar a ler, e em 4 dias… voilá… Terminei o livro!

 
E assim houve nesta leitura, excertos e palavras que se colaram a mim e que deram sentido ao que lia.

 
1º as palavras da contrapa:
“Vou anotando nas páginas do meu milagrário pessoal os factos extraordinários que me sucedem, ou de que sou involuntária testemunha, dia após dia. É um diário de prodígios. Os milagres acontecem a cada segundo. Os melhores costumam ser discretos. Os grandes são secretos.”

 
2º as palavras que nascem novas para o vocabulário. E eu escolhi a minha: Desamparinho ♥
 “Desamparinho, em minha opinião uma das mais bela palavras do crioulo cabo-verdiano que dá nome aquela hora feliz, ao final da tarde, quando o dia cede o lugar à noite, o calor esmorece, e os velhos se sentam nos passeios, fruindo o fresco e as cigarras, e vendo as moças passarem sacudindo as ancas”

Também para mim é uma bela palavra, e a descrição que é feita transporta-me para aquele momento do lusco-fusco, com as cores e os cheiros de um final de tarde…

 

3º a realidade sobre o povo português. Esta mensagem fez-me pensar que sim, é isto mesmo:
“Os portugueses com coragem e ambição foram-se embora nas caravelas, a construir mundos, a destruir outros mundos. Ficaram os velhos do Restelo, coitados, sempre a queixarem-se da crise e do reumatismo, e a transmitirem muito a custo os fracos genes, além do medo, às gerações vindouras.”

 
Demorei a decidir-me, a encontrar coragem para contrariar o “fado” que este livro parecia conter, mas foi um prazer embarcar nesta viagem com a língua portuguesa, descobrir as origens, encontrar a língua dos pássaros e no fim de tudo perceber que não é mais do que uma história de amor.


Bom desamparinho

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