Santiago de Compostela | Dia 3 – De Redondela a Barro (~ 33km)

Quando começamos este dia, às 7h da manhã, ainda não sabíamos o quão longo ele ia ser. Nos nossos planos, faríamos uma etapa curta de 17km até Pontevedra e lá iriamos pernoitar [*mas como disse no inicio, “Caminhante, não há caminho, faz-se caminho ao andar”, e logo aqui as nossas etapas foram alteradas].
 
Ria de Vigo
 
Saímos de Redondela, embrenhamo-nos pelo mato, com alguns cortes pela estrada mas nada de mais, e foi sempre a subir.
 
Pelo bosque
Desta vez a paisagem era mais agradável e o facto de termos saído pela fresca ajudava, mas ainda assim subimos e subimos, e milagres acontecem, lá no alto um jovem a tocar guitarra, vendia bebidas frescas [*tenho a certeza que ele sabe o que custa fazer aquela subida], perguntou-nos se sabíamos falar castelhano respondi-lhe que sim, e como recompensa ensinou-nos um caminho alternativo a 2km de estrada nacional logo após a Capela de Santa Marta, disse-nos que era cerca de 1km mais longo mas que seguia junto a um rio, o que nos pareceu uma alternativa bastante interessante e desta vez já não a deixámos passar, e foi assim que seguimos pelo caminho mais longo, mas claramente mais belo e acima de tudo mais fresco, uma vez que se aproximava a hora de almoço e do calor.
 
O desvio sugerido quase a chegar a Pontevedra
Ao almoço estávamos em Pontevedra e era hora de tomar decisões! Era cedo, tínhamos ainda uma tarde, e as nossas pernas diziam-nos que eramos capazes de prosseguir caminho, no entanto sabíamos que o próximo albergue ficava ainda a cerca de 10km mais. Mas seríamos mesmo capazes de lá chegar numa tarde de calor?!
Mas por outro lado se fizéssemos estes km a mais, era sinal que estávamos a diminuir a distância na última etapa que seria a mais longa, e assim poderíamos pernoitar em Teo na última noite e ficar apenas a 10km de Santiago de Compostela, por isso decidimos fazer uma hora de almoço mais longa e depois seguir caminho.
Vieira de Santiago (Concha de Santiago) 
O percurso da tarde foi feito mais uma vez entre mato e floresta, numa zona bem bonita por sinal, mas depois da paragem e com o calor que se fazia sentir, começamos a duvidar, mas não dava para voltar para trás, e foram precisas 2h30 para percorrermos 9km.
 
Foi já sem forças que chegámos ao Albergue da Portela onde fomos recebidos pelo Sergio, que não nos deixou tomar um banho sem antes partilharmos com os restantes peregrinos um copo de sangria que estava a ser servido aquela hora. Depois do banho tomado, o jantar foi aconteceu para todos no jardim, o Sergio que me via pela primeira vez chamou-me e pediu-me para ser eu ler a oração da refeição [*o meu coração encheu-se de alegria]. O jantar foi animado, uma mesa cheia de vida, os mais jovens que encontrei a percorrer o caminho e que não tinham mais de 11 anos, corriam a mesa oferecendo e repetindo “Pimientos de Padrón: unos pican y otros no» [*nenhum dos talvez mais de 10 que comi picaram!].
 
Peregrinos no Albergue da Portela
Depois já no fim do jantar, o Sergio disse que iriamos ter uma tradição galega à mesa, a “Queimada”, que consistiu numa mistura de aguardente, com grãos de café, açúcar e limão [*uma bomba]. No entanto manda a tradição que enquanto a Queimada arde, que se recite o “Conjuro da Queimada” [*quem teve a honra mais uma vez: Euzinha]
 
Conjuro da Queimada
 
Buhos, lechuzas, sapos y brujas.
Demonios maléficos y diablos, espíritus de las nevadas vegas.
Cuervos, salamandras y meigas, hechizos de las curanderas.
Podridas cañas agujereadas, hogar de gusanos y de alimañas.
Fuego de las almas en pena, mal de ojo, negros hechizos, olor de los muertos, truenos y rayos.
Ladrido del perro, anuncio de la muerte; hocico del sátiro y pie del conejo.
Pecadora lengua de la mala mujer casada con un hombre viejo.
Infierno de Satán y Belcebú, fuego de los cadáveres en llamas, cuerpos mutilados de los indecentes, pedos de los infernales culos, mugido de la mar embravecida.
Vientre inútil de la mujer soltera, maullar de los gatos en celo, pelo malo y sucio de la cabra mal parida.
Con este cazo levantaré las llamas de este fuego que se asemeja al del infierno, y huirán las brujas a caballo de sus escobas, yéndose a bañar a la playa de las arenas gordas.
¡Oíd, oíd! los rugidos que dan las que no pueden dejar de quemarse en el aguardiente quedando así purificadas.
Y cuando este brebaje baje por nuestras gargantas, quedaremos libres de los males de nuestra alma y de todo embrujamiento.
Fuerzas del aire, tierra, mar y fuego, a vosotros hago esta llamada: si es verdad que tenéis más poder que la humana gente, aquí y ahora, haced que los espíritus de los amigos que están fuera, participen con nosotros de esta queimada.
 
Queimada
Foi difícil adormecer nessa noite, não sei se foi do grão de café, ou se do “trator” que tínhamos dentro do quarto a ressonar, mas na verdade, só pensava e só repetia para o J. que tinha valido a pena cada minuto de sofrimento no caminho daquele dia, pois esta foi sem dúvida a melhor noite, o melhor albergue [*se voltar a fazer este caminho, passarei sem dúvida pelo Albergue da Portela em Barro, pois aqui fui Feliz]

 

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