Memórias de ti

Já se passaram tantos anos desde que partiste e, se pensar que nos últimos tempos aquela já não era a tua casa, a distância até ao dia em que ali estiveste pela última vez é ainda maior.
Ao longo deste anos regressei algumas vezes, encontrei quase sempre a panela de pressão em cima do fogão, até que tanto falei do quanto me custava vê-la ali que acabou por desaparecer, entrei sempre no quartinho onde dormias e onde os nossos brinquedos ainda se acumulam, olhei a dispensa e os armários ainda abastecidos e hoje, encontrei um jarro ainda com água, como é possível? Não deixa de ser curioso, porque ao fim de tantos anos há ainda tantos sinais de ti, que se não fosse o pó acumulado era capaz de dizer que ainda o mês passado ali tinhas estado.

Quando penso nisto, não encontro uma resposta clara, não sei porque é que demorou tanto tempo, não sei porque é que adiamos este dia quando sabíamos com toda a certeza que era preciso começar por algum lado. E hoje começamos a esvaziar os armários, tirámos peça por peça, os serviços de jantar, de café, de chá, tirámos os copos da cristaleira, e peça por peça fomos dividindo, um bocadinho de ti principalmente para cada um dos teus netos. Não houve disputas, não houve guerras, não houve eu queria e outros também, nada disso, dividimos entre nós a tua memória da mesma forma que nos educaste e nos ensinaste a partilhar.
Hoje foi só o inicio, ainda teremos muito mais a fazer, mas começamos, não a desfazer-nos de ti e das tuas memórias, mas a revivê-las e a trazê-las para nós, porque tu és e sempre serás a nossa Avó! 


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