Mafalda Veiga [memórias que o Leslie não levou]


No último sábado o Leslie deu cabo dos planos de muito boa gente incluindo dos meus. Eu sei que já se previa mau tempo, que o conselho era para não sair de casa mas há meses que este concerto estava marcado, o presente tinha sido de aniversário e como se diz na gíria popular, “nem que chovessem picaretas” eu deixaria de ir. E lá fui, e lá fomos, cedo, para evitar o Leslie mas não para evitar o papel de concerto cancelado que me pregaram no nariz assim que sai do elevador no Campo Pequeno. Compreendo a decisão, lido com a desilusão, principalmente porque saiu a nova data e vai ser preciso esperar até ao dia 26 de janeiro de 2019 para comemorar os 30 anos de carreira de Mafalda Veiga em concerto.
Pensando bem, não sei quando ouvi Mafalda Veiga pela primeira vez mas sei que se tornou uma referência nos meus tempos de secundário e que continuou a sê-lo durante a universidade, até que outros sons foram ganhando espaço e fui ouvindo cada vez menos, mas é incrível como há músicas que fazem parte da nossa história, que marcam quem somos e os muitos sonhos que sonhámos. Na falta do concerto dos 30 anos, pus a tocar o CD que comemorou os 20 no Coliseu de Lisboa e dei-me, mais uma vez, conta do conjunto incontável de memórias e recordações que nasceram ali sob aqueles acordes e aquelas letras.
“Cada lugar teu”, será sempre a música que me fará lembrar o meu primeiro grande amor, lembrar-me-ei sempre do dia em que decidimos que a música seria nossa, de todas a vezes em que ao ouvi-la em concerto te ligava e das tantas vezes que a escrevemos um para com a certeza de que “mesmo que a vida mude os nossos sentidos e o mundo nos leve para longe de nós, eu vou guardar cada lugar teu”.
“Cúmplices”, é a música da nossa conturbada amizade, que foi marcada pelas cartas que escrevíamos sem parar, apesar de passarmos os dias sentados ao lado um do outro, porque sempre foi na escrita que nos soubemos exprimir melhor, e foi nas letras da Mafalda Veiga que desenhámos um mundo onde acreditámos existir para sempre esta nossa amizade, não havia dúvidas desta nossa ligação porque: “Se eu fosse a tua pele, se tu fosses o meu caminho, se nenhum de nós se sentisse nunca sozinho”.
Depois há a “Lume”, as tuas palavras certeiras e as nossas conversas sobre coragem, onde invariavelmente me recordas (sempre), com medo de que eu me possa algum dia esquecer, que:
“Não percas tempo,
O tempo corre
Só quando dói é devagar
E dá-te ao vento
Como um veleiro
Solto no mais alto mar”
Mas em boa verdade, Mafalda Veiga foi sempre motivo para celebrar a nossa amizade, e em especial os momentos partilhados nos concertos dos Casinos, do Coliseu e por isso “Uma noite para comemorar”, será sempre para te lembrar, para nos lembrar, que a amizade é ir para lá do tempo:
“Esta é uma noite para me lembrar
Que há qualquer coisa infinita como um firmamento
Um sorriso, um abraço
Que transcende o tempo”
Mas foi também na minha relação comigo que as músicas da Mafalda Veiga me marcaram e que tantas vezes fizeram sentido, mas há uma que passe o tempo que passar ou ouça eu em qualquer momento da minha vida que vai fazer sempre sentido, porque sei que mesmo que me falte o chão há sempre “Um pouco de céu” e a decisão de o alcançar será sempre minha:
“não sei o motivo pra ir
só sei que não posso ficar
não sei o que vem a seguir
mas quero procurar”

O Leslie já passou, as memórias permanecem e dia 26 de janeiro lá estaremos em mais uma noite para comemorar!



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