Os Maias | Eça de Queiroz


Foi no ano passado que comecei a pensar em voltar a ler Os Maias, cheguei mesmo a ler as primeiras páginas, mas percebi que era uma leitura que ia requer tempo e dedicação, por isso coloquei de lado a ideia. Voltei a pensar nisso, quando no mês de fevereiro o tema do Clube de Leitura Uma Dúzia de Livros foi Famílias, mas como no mês de Março seria Clássicos, decidi guardá-lo para agora.

Ler Os Maias foi, para alguns um tormento, para outros um simples vislumbre a partir dos resumos mas no meu caso, talvez porque como sempre fui uma devoradora de livros, ler os Maias foi um prazer e 20 anos depois, posso dizer que o sentimento foi o mesmo.

[se nunca leste Os Maias fica por aqui porque vou entrar em modo spoiler]

Os Maias são sobejamente conhecidos pela história de incesto de Carlos e Maria Eduarda da Maia e pela pormenorizada descrição do Ramalhete. Mas Os Maias, são episódios da vida romântica, uma história de família onde acompanhamos Afonso, Pedro e Carlos da Maia, uma história sobre a amizade que se cruza entre as diferentes gerações, uma história que nos retrata, à época, o panorama social e cultural Lisboa.

A posição de que goza a família Maia, introduz-nos num mundo cultural, social e político que é habilmente descrito por Eça de Queiroz. As personagens que frequentam o Ramalhete nos seus jantares e serões, as que se movem pelos teatros e cafés da cidade, não são mais do que caricaturas de figuras que existiram naquele tempo: o melhor amigo boémio (Ega), o melhor amigo poeta (Alencar), o intriguista (Dâmaso), o maestro (Cruges), o correcto (Craft), o político (Steinbroken), o corrupto (Eusèbiozinho), entre outros personagens, onde também as mulheres ganham um papel de destaque pela forma como se apresentam na sociedade, procurando nas relações extra conjugais aquele amor romântico que os seus casamentos não lhes proporcionam (Gouvarinho e Cohen).
Mas voltemos aos dias de hoje, onde é possível, porque se torna fácil, reconhecer os mesmos personagens, e onde se mantêm actuais os três conselho que Afonso da Maia tem para dar ao seu país:

“Aos políticos: “menos liberalismo e mais carácter”; aos homens de letras: “menos eloquência e mais ideia”; aos cidadãos em geral: “menos progresso e mais moral””

Numa história de três gerações, onde o amor foi determinante no desfecho de cada uma, é no primeiro olhar de Carlos sobre Maria Eduarda que a prosa se começa a adensar, em contornos de uma paixão correspondida que foi sendo cultivada sob a forma de um amor para a vida. E é neste amor que o leitor vai penetrando lentamente até ao seu desfecho, que vai para além da sua imaginação.

“Foi aquele decerto o período mais delicado da sua vida. Sentia em si mil coisas finas, novas, de uma tocante frescura. Nunca imaginara que houvesse tanta felicidade em olhar para as estrelas, quando o céu está limpo; ou em descer de manhã ao jardim, para escolher uma rosa mais aberta. Tinha na alma um constante sorriso - que os seus lábios repetiam.”

Um clássico que deve ser lido ou relido. A maturidade que adquirimos ao longo dos anos, leva-nos descobrir novos caminhos na escrita de Eça de Queiroz e a olhar para Os Maias com outra sabedoria e outros olhos, que nos fazem apreciar muito mais a sua obra.

Os Maias | Eça de Queiroz (1888 ) | Edição "Livros do Brasil" Lisboa (sem data)

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