F1 Drive to Survive



Há memórias que ficam entranhadas em nós e que são facilmente relembradas com um som, uma imagem, uma sensação!
O som da velocidade dos carros de Fórmula 1 é uma inquestionável memória da minha infância, que traz agarrada a si uma mesa cheia, o cheiro a chouriço e o sabor inconfundível do cozido à portuguesa em casa da minha avó Fernanda ao domingo.
Penso sempre no meu tio Luis, a estrategicamente posicionar a mini televisão, onde deixávamos os olhos ficarem presos no asfalto e o coração bater mais forte a cada paragem na box, onde de forma milimetricamente cronometrada se via o poder do trabalho em equipa para permitir ao piloto seguir em frente. Devo-lhe a ele a minha paixão pela Fórmula 1.
Não sei ao certo se foi depois de 1994 e daquele fatídico dia 1 de Maio, em Imola, que comecei a afastar-me deste desporto, acho que naquele dia tive uma real noção do quanto estes super heróis que todos os fins de semana via a pilotar carros como se fossem foguetões, eram realmente humanos e vencíveis. Ganhei medo a um desporto que durante a sua temporada me entrava pela casa, passei a olhá-lo com outros olhos e aos poucos fui desligando.

Este fim de semana numa viagem de 7 horas de avião, não tinha tv a bordo para ver filmes e então peguei no meu iPad e comecei a ver Fórmula 1 - Drive to Survive, da Netflix. Vi um episódio, dois e quando dei por mim tinha visto a série toda. Não consegui parar. Tentei dormir mas tinha o cérebro a fervilhar com aquela velocidade, com aquele mundo.
Poucos foram os pilotos que reconheci, mas a cada episódio fui conhecendo as lutas que são travadas para vencer uma corrida, para alcançar um lugar na pole, para ganhar os tão desejados pontos e acima de tudo conseguir um lugar numa equipa no próximo ano, porque afinal são apenas 20 os eleitos, e independentemente da sua equipa, são todos rivais e estão cada um por si. E foi ao conhecer estes bastidores que fui ganhando respeito e apreço por uns, fui decidindo que não gostava da postura de outros, foi assim que me afeiçoei-me às equipas mais pequenas que tentam competir com os grandes nomes, que me desiludi-me com o facto de a Renault não acertar com um motor à altura da competição, e por uma das grandes do meu tempo, a Williams, não conseguir ir além do fundo da tabela dos construtores. Com esta série conheci circuitos incríveis que não existiam há 20 anos, como o do Bahrain, Baku no Azerbaijão, Marina Bay em Singapura mas continuei a ter a certeza que o do Mónaco será sempre o mais incrível de todos.
Sem dúvida que este é o desporto mais visto no mundo, onde os orçamentos não são sequer possíveis de imaginar em alguns casos e o dinheiro que se movimenta ao seu redor é incontável. Mas é isto também, que leva a que seja um dos maiores espectáculos e que se tenha (mesmo) os melhores do mundo.
Depois deste fim de semana descobri que afinal a minha paixão estava só adormecida e dei por mim no domingo a ver os resumos da corrida do Bahrain, a procurar os pilotos na classificação e o resultado de cada uma das equipas.
Depois de Drive to Survive só tenho um pedido: Fórmula 1, volta por favor ao canal público, volta para os programas de família, volta para continuares a construir memórias.

Citando Daniel Ricciardo:
“quando entrei na F1, todos me conheciam como o tipo feliz e o tipo porreiro, mas eu tenho um instinto assassino”
E é este instinto que os pilotos de Fórmula 1 tem, quando se sentam ao volante daqueles carros que os tornam super heróis.


1 comentário

  1. eu nunca gostei de F1, mas associo os sentimentos que falaste à Volta em Bicileta, e curiosamente ao meu tio também!
    Encontrei o teu cantinho via Uma Dúzia de Livros da Rita da Nova e vou seguir de perto!

    beijinho :)*

    https://fipaintsthetownread.blogspot.com/

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